Este detalhe mudou a História

Por Giancarlo Yamamura Bardelli

A educação de um rei

O rei macedônico Filipe II (382–336 a.C.) ampliou consideravelmente seu reinado, tornando-se o homem mais poderoso do mundo helênico. Inteligente e estrategista, já havia iniciado uma intensa busca por alguém que servisse como educador a seu filho, quando este atingiu a puberdade. Depois de cogitar dois dos mais importantes sábios da época, Euspesipo e Isócrates, o rei optou por um homem de 40 anos, proveniente de Atenas, outro aluno do lendário filósofo Platão.

Começava um período de extraordinário aprendizado, em que o jovem príncipe, então com 13 anos, passou a dividir seu tempo entre jogos bélicos, envolvendo cavalos e armas, e explorações filosóficas nos terrenos da ciência, arte e política. Essa associação pedagógica moldou o caráter do rapaz, tornando-o um homem espetacular tanto na reflexão quanto na ação. O autoconhecimento provocado pelas longas caminhadas junto ao professor, permeadas por conversas cruciais, a clarificação de seus pontos fortes, o trabalho sobre suas fraquezas, o cuidado nos detalhes e a busca utópica pela perfeição esculpiram naquele jovem as bases de um visionário general.

Mas a guerra separa coach e aluno, agora com seus 16 anos. O rei Filipe II declara guerra contra Bizâncio, e o reino troca seus anos de paz pela tensão e pelo expansionismo. O nosso jovem se vê, de repente, ocupando o cargo de regente durante a ausência do pai, e logo é obrigado a defender-se contra a revolta de uma tribo trácia, cujo território ele então invade e coloniza. Tendo provado sua bravura e inteligência, o príncipe adolescente torna-se um dos maiores generais do reino, conhecendo o gosto da vitória e até mesmo salvando a vida de seu pai.

E foram anos de glória para Filipe II, que venceu Atenas e Tebas pela hegemonia do mundo helênico. Filipe unificara praticamente todo o mundo grego ao redor de seu nome e de sua vontade. Seus olhos agora se voltavam para o Império Persa, a eterna ameaça pairando sobre os gregos, mas seu sonho de um dia livrar seu povo de seu maior inimigo é interrompido. Filipe II é assassinado por um guarda-costas.

Sem tempo para preparar a sucessão, o filho mais instruído de Filipe assume o trono. O novo rei tem apenas 20 anos, está órfão e cercado de perigos. Adversários políticos afiam suas adagas, Tebas e Atenas declaram sua independência da liga, o reino ameaça ser invadido por tribos do norte. Todo o vasto legado conquistado e deixado por Filipe II ameaça despedaçar-se. E tudo depende de um homem recém saído da adolescência.

Aconselharam-no a agir com cuidado, consolidar seu poder interno, fortificar as defesas e aí sim reformar a liga com a influência de seu poder. Era isso que Filipe II faria. Mas não foi o que o filho fez. Sem dar tempo para seus opositores, o jovem rei lidera o exército ao sul, reconquista Tebas e parte para Atenas, que se submete sem resistência à agilidade daquele homem, e é readmitida à liga. Agora, ao invés de consolidar seu poder na Grécia, o jovem rei decide fazer o imprevisível: começar uma campanha contra o maior inimigo dos gregos – o poderoso Império Persa.

Em território inimigo, o jovem rei vence batalhas importantes e, ao invés de forçar sua posição para arriscar um cheque-mate, avança seu exército para outras terras, incorporando importantes regiões agrícolas, estendendo seu domínio até o Egito.  Suas iniciativas cortaram os suprimentos do império persa, ao mesmo tempo que garantiam um abundante manancial de recursos ao exército helênico. O talento político do líder grego mostrou-se absolutamente inovador para o mundo antigo. Ao invés de testemunharem um invasor sanguinário, as cidades ocupadas veem no jovem conquistador um homem justo e sensato, capaz de adaptar-se aos costumes locais e apaziguar os nervos dos vencidos, ao manter a mesma infra-estrutura administrativa, e cobrando os mesmos impostos, que agora financiavam os gregos. Várias cidades persas simplesmente davam as boas vindas ao carisma político dos vencedores.

Finalmente, a Batalha de Gaugamela, quando os gregos derrotaram definitivamente os persas, foi o golpe final de uma grande campanha, arquitetada em todas as esferas estratégicas: a militar, a política e a ideológica. O jovem rei, agora com 25 anos, tornou-se o soberano de todo o mundo antigo, levando os fundamentos da civilização grega às várias geografias conquistadas, ofuscando até mesmo o nome de seu pai, Filipe II. O filho, Alexandre III, nosso lendário soberano do mundo conhecido, ficou conhecido pela posteridade simplesmente como Alexandre o Grande.

O triunfo sobre si mesmo

Anterior às glórias; anterior à conquista de todas as geografias; muito antes da morte do pai e do trono precoce; antes mesmo à guerra contra Bizâncio e ao posto de regente ainda na adolescência: havia aqueles anos que Alexandre dividiu com seu educador. Ao invés de um ensino baseado em mera transmissão e reprodução de conhecimento, como na maioria das escolas de hoje, Alexandre o Grande aprendeu a refletir, calcular, controlar suas emoções, observar a realidade como um cientista, adaptar-se aos desafios e admirar a arte e a beleza das coisas.

O trabalho de um bom educador é ajudar o aluno a atingir a glória, e para isso o coach se esmera nos bastidores para que seu treinado atinja a excelência sob os holofotes. Muito antes de conquistar e governar o mundo, Alexandre o Grande governava a si mesmo. Ele levou sempre consigo o conhecimento esculpido durante aqueles três anos em que conviveu com aquele educador ateniense, também conhecido no mundo antigo e através dos tempos pelo nome de Aristóteles.

4 gerações e um fio condutor

Alexandre o Grande foi aluno de Aristóteles, que aprendeu com Platão, que foi o grande aluno de Sócrates. Há uma linhagem entre essas quatro gerações de homens, que moldaram a civilização ocidental. Eles não tinham o mesmo sangue, nem suas origens eram semelhantes. O fio condutor entre Sócratres, Platão, Aristóteles e Alexandre foi justamente: a educação.

O que eu admiro em Alexandre o Grande não são exatamente suas campanhas militares, que nós não podemos conceber, mas sua habilidade política. Napoleão Bonaparte