A eficiência de sua liderança depende deste fator

Por Giancarlo Yamamura Bardelli

Foi muito doloroso. No fim de 2016, li nos jornais que um acidente aéreo havia matado quase um time inteiro de futebol, a Chapecoense. Trabalhava naquele time um de meus alunos mais marcantes. Atordoado, procurei o nome dos membros do time que embarcaram naquele avião. O nome de meu aluno estava lá, Luis Felipe Grohs, o Pipe.

O Pipe me teve como seu professor em três oportunidades, desde seus 13 anos. Na última vez em que trabalhamos juntos, ele havia me contratado para ser seu coach de inglês. Ele queria também aprender mais sobre Liderança. Pipe estava tornando-se um educador também. Não é por acaso que os jogadores de futebol chamam o treinador de professor.

Quando ele trabalhou em Dubai, como assistente do Caio Júnior, fazíamos aulas em língua inglesa por Skype. A conversa era descontraída, mas tinha um grande embasamento técnico. Dentre os assuntos mais relevantes, falávamos sobre como liderar e motivar os jogadores, assim como todos aqueles pelos quais temos responsabilidades. Numa de nossas aulas, conversamos sobre este aspecto chave para um bom desempenho de seu time.

A ciência da motivação

Em 1963, um estudo liderado por Robert Rosenthal trouxe à luz algo surpreendente. Ele deu cinco ratos a cada um de seus alunos de psicologia. Os ratos eram praticamente iguais, mas os cientistas haviam mentido deliberadamente aos alunos. Disseram-lhes que os ratos haviam sido selecionados por cruzamento: metade deles, contaram os cientistas, eram ratos-gênios, enquanto a outra metade eram ratos-tolos. Os cientistas então pediram para que os estudantes avaliassem o comportamento dos ratos em um experimento.

Sem que soubessem que os ratos eram iguais, metade dos estudantes ficou com os “roedores apontados como inteligentes”, e a outra porção ficou com os “menos capazes”. Mesmo acreditando que os ratos eram diferentes entre si, os alunos foram instruídos a tratarem todos os roedores da mesma maneira e com os mesmos cuidados.

Os ratos foram colocados em um “labirinto”, em forma de T. Um dos braços do T era branco, e o outro, cinza. Só havia comida no braço cinza. Os ratos deveriam aprender a ir diretamente no braço onde havia comida. Cada rato tinha 10 chances por dia para aprender o caminho direto para o alimento. Os estudantes avaliavam o aprendizado diário dos roedores, tomando notas. O resultado impressionou os cientistas.

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Os ratos que os alunos acreditavam serem brilhantes tiveram uma performance significativamente melhor do que os ratos rotulados como menos capazes. Isso quer dizer que a crença na capacidade dos ratos influenciava sua perfomance, aumentando suas chances de sucesso ou fracasso. O mesmo experimento foi duplicado em outros laboratórios, com os mesmos resultados. Mas, se isso foi demonstrado com os ratos, será que um experimento semelhante poderia alcançar o mesmo resultado com humanos? Foi isso que os cientistas fizeram depois.

Eles resolveram aplicar uma variação do mesmo teste com alunos da rede de ensino. Nas escolas, sob a supervisão dos cientistas, vários alunos participaram de um teste de QI. Somente os professores receberam os resultados, sem saber que os cientistas haviam adulterado de propósito os dados: alguns alunos com resultado mediano receberam as pontuações mais altas. Isso fez com que os professores acreditassem que esses alunos eram brilhantes.

Algum tempo depois, os professores alegaram que tais alunos eram mais curiosos e interessados nas aulas do que os demais. Isso consequentemente foi traduzido em suas notas, que passaram a ser melhores também. Ou seja, a crença de que os alunos eram mais inteligentes, tornou-os mais interessados na aula. Mas outro dado chocou ainda mais os pesquisadores.

Oito meses depois, todos os alunos fizeram um segundo teste de QI. O resultado foi que 80% dos alunos apontados erroneamente como “brilhantes” haviam tido um ganho acima de 10 pontos. E até mais extraordinário ainda: 20% desses alunos ganharam 30 pontos ou mais em seu Quociente de Inteligência. Isso quer dizer que, ao serem classificados como mais inteligentes, esses alunos tiveram, de fato, um aumento significativo em seus atributos intelectuais. Esses resultados iluminam importantes pontos sobre a educação, assim como grandes áreas negras que existem no sistema tradicional de ensino.

Quando professores, chefes, treinadores e pais rotulam um indivíduo como “fraco”, ou menos capaz, mesmo que guardem tal informação em seu íntimo, eles acabam influenciando negativamente a performance daquela pessoa. Trata-se de um defeito gravíssimo em um líder. Por outro lado, quando o líder é bom, ele acredita verdadeiramente no potencial do indivíduo, desabrochando suas maiores qualidades. Os resultados serão certamente melhores neste caso.

Por que isso ocorre?

Aconteceu há uns 15 anos. Três amigos e eu saíamos de um bar. No meio da quadra, numa zona mais escura, fomos abordados por dois homens. Eles nos perguntaram onde se localizava a rodoviária. Ao invés de respondermos, nossas pernas nos levaram apressadamente para o outro lado da rua. Seríamos assaltados! Nosso inconsciente sabia do perigo e reagiu, movendo nossas pernas, como animais que agem sem pensar. A consciência participou meio atrasada da ação, como um narrador: “Caramba! Os caras iam assaltar a gente!”.

Ainda que sejamos racionais, Schopenhauer e Nietzsche estavam certo: somos animais sobretudo. Ou, se preferir algo mais freudiano, somos movidos pelo nosso inconsciente. Essa espécie de “intuição” que nos levou a atravessar a rua, por exemplo, é um poderoso mecanismo desenvolvido pela evolução. Ela garantiu a sobrevivência de muitos de nossos ancestrais a situações de perigo iminente, salvando-lhes a pele.

Graças a tais mecanismos, nossos antepassados sobreviveram, geraram descendentes com o mesmo código genético e cá estamos hoje. Nosso cérebro e seus misteriosos mecanismos são o resultado de milhões de anos de evolução.

Podemos dividir o cérebro humano de diversas maneiras. A mais comum delas é a diferença que existe entre os dois hemisférios do cérebro, que realmente possuem funções muito diferentes. Mas outra maneira bem interessante de entendermos este órgão é dividindo-o em 3 estruturas distintas, de dentro para fora.

Imagine uma fruta, por exemplo: ela possui uma casca, um polpa e um caroço. Assim a mente humana também possui três camadas distintas: o sistema reptiliano, o sistema límbico e o neocórtex. As partes mais profundas são heranças genéticas que temos de outros mamíferos mais primitivos, e até mesmo de répteis jurássicos. Essa longa história de nossa neurologia é interligada pelo fio da evolução.

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Nossos 3 Cérebros: fruto de milhões de anos de evolução, desde os primeiros répteis

Vamos concentrar-nos aqui na segunda camada, o sistema límbico, já que falamos de ratos anteriormente.

O sistema límbico é nossa mente emocional. Essa parte do cérebro é também chamada de cérebro mamífero, sendo que golfinhos, ratos e o seu cachorro também o possuem. Para se ter ideia, nossa consciência, localizada no neocórtex, possui pouca influência nesta região. Ela, a consciência, funciona mais como um porta-voz do sistema límbico do que como comandante. Daí sermos governados pelas nossas emoções.

O sistema límbico é também especialista em observar movimentos e interpretá-los. Mesmo micromovimentos, que são por vezes indetectáveis pela nossa consciência, são processados pela nossa mente emocional. Do mesmo modo, modulações nas vozes de nossos interlocutores também são percebidas por esta parte da mente.

Os ratos, como no estudo descrito anteriormente, também processam nossos movimentos e nossas vozes no sistema límbico, reagindo de acordo com a leitura desses sinais. O mesmo se pode dizer do ser humano, o que inclui nossos colegas no trabalho, filhas e alunos. Todos leem movimentos e tons de vozes, reagindo de acordo com os dados que o sistema límbico interpreta. Isso ocorre de maneira automática e inconsciente. Uma partida de futebol ilustra bem isso.

Todos sabemos da importância do fator campo em uma partida. Os times têm preferência por jogar seus jogos em casa. O sistema límbico dos jogadores – como o dos ratos e dos estudantes do teste de QI – processa os sinais positivos vindos da torcida. O grito, os gestos, as cores das bandeiras melhoram a performance dos atletas. Se a torcida, porém, se irrita e vaia os jogadores, o efeito sobre os atletas é dramaticamente negativo. Eles passam a jogar pior. A torcida é mesmo o 12º jogador.

A chave da motivação: Acreditar no potencial dos heróis

Nossos ancestrais romanos foram sábios ao relacionar em seu vocabulário essas três palavras: emoção, movimento e motivação. Ligadas ao sistema límbico, todas elas possuem a mesma raiz etimológica, a palavra motio. Isso talvez fique mais claro quando observamos essas palavras na língua inglesa: emotion, motion e motivation. A relação que elas possuem, do ponto de vista da neurociência, é a de que uma pequena modulação no tom de voz e na expressão corporal (motion) gera algum tipo de emoção (emotion) no interlocutor. Se a emoção for positiva, o interlocutor torna-se motivado. A motivação, por sua vez, gera também movimento (motion), um chamado à ação que impulsiona melhores performances. 

Lembro-me agora do Pipe! Ele acreditava na capacidade de seus jogadores. Junto com Caio Júnior, ele foi um dos responsáveis pelo sucesso dos jogadores da Chapecoense até a final da Copa Sulamericana. Ele também sentia o quanto eu apostava nele. Acreditar no potencial do indivíduo torna-o significativamente mais apto a realizar algo muito bem.

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O contrário também acontece. Duvidar da capacidade de alguém torna o indivíduo mais propenso a falhar em seus intentos, gerando um círculo vicioso que pode condenar a pessoa ao fracasso, como uma maldição. Isso possui sérias implicações nas escolas, nas empresas e nos lares.

Cada indivíduo é o herói de sua própria trajetória. Este herói possui talentos latentes e qualidades para serem desenvolvidas. Todo grande líder sabe enxergar e alavancar essas virtudes. Daí a importância de que pais, educadores, gestores e líderes possam ter esse olhar especial, a capacidade de encontrar valor no herói. É necessário conhecê-lo mais a fundo, buscar ouvi-lo e perceber aquilo que ele pode oferecer de bom ao mundo. Elogios são sempre bem-vindos. O bom líder o faz com sinceridade. A honestidade de suas palavras e de seus gestos (motion) atuará na mente do herói em seu sistema límbico (emotion), melhorando seus processos e seus resultados (motivation). Você será um líder mais eficaz aplicando este conhecimento em sua realidade, motivando seus heróis, seus filhos, alunos e colegas a atingirem grandes objetivos.

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