Este é o ingrediente essencial se você quer falar outras línguas

Por Giancarlo Yamamura Bardelli

Quando João era mais jovem, ele passou muito tempo de sua vida fazendo aulas de inglês na escola, desde o início do Ensino Fundamental até o fim do Ensino Médio. Depois de 12 anos de aulas, tarefas e provas, mesmo com notas boas, ele não podia ainda comunicar-se em inglês, e mal entendia os textos feitos para falantes nativos do idioma! Além do tempo e dinheiro investido em um “ensino fake”, João terá ainda que desembolsar milhares de reais para tentar aprender inglês de verdade em um curso fora da escola tradicional.

Assim como João, outros 97% dos brasileiros não falam inglês, mesmo que metade destes tenham terminado o Ensino Médio. Isso mostra que a educação do Brasil simplesmente falhou no ensino de uma das perícias mais importantes do mundo contemporâneo, a habilidade de falar o idioma global. Há várias causas para este mesmo problema. Você poderá compreendê-las nas próximas linhas, assim como as soluções possíveis para resolver essa questão, caso queira aprender a falar inglês de verdade, ou outra língua de sua preferência.

Dentre os diversos problemas das aulas tradicionais, vamos concentrar-nos aqui no mais importante deles. A falta do ingrediente mais importante para se aprender uma língua: a imersão.

Sem imersão, o aprendizado de línguas é simplesmente impossível. A imersão consiste em um mergulho social e mental na língua-alvo (a língua que você quer aprender). É por isso que se aprende mais rápido estando no país onde se fala o idioma; ou seja, morar em Londres ou em Nova York, por exemplo,  é uma das melhores maneiras de aprender inglês. Mas, mesmo assim, muitas pessoas voltam do exterior sem falar ainda o idioma, mesmo depois de passarem alguns meses por lá.

Isso acontece justamente quando elas evitam a imersão, ao interagir demais com outros brasileiros e afins, limitando o seu contato com a língua-alvo. Mas, se a situação já é desafiadora para quem viaja ao exterior, imagine só para quem está no Brasil: aprender um idioma na escola tradicional é como “tirar leite de pedra”, praticamente impossível.

O maior problema das aulas tradicionais de inglês, por exemplo, é que elas são feitas em português. Ou seja, não há imersão. Pronto! Só com isso a escola já inviabiliza o ensino, por maior que sejam suas boas intenções. O fracasso é certo. Com o professor falando em português, o contato com a língua estrangeira é quase nulo, ficando restrito a regrinhas gramaticais que o aluno decora para fazer a prova. A escola tradicional acha que a língua é um conjunto de regras, enquanto a realidade mostra que a língua é um instrumento de comunicação. Ou seja, a escola cria uma realidade paralela que só existe dentro de seus muros, e as aulas de inglês ali só servem para que o aluno faça uma prova na própria instituição, sem relação direta com a vida real.

Aulas tradicionais de inglês. Os alunos não se comunicam, e a professora só fala português. Isso não funciona!

Uma das principais razões desse fenômeno nas aulas de língua inglesa é que, pasmem!, a grande maioria dos professores de inglês das escolas tradicionais, públicas e privadas, não falam inglês!!! Ou falam muito mal.

Temos então o famoso cenário em que “o professor finge que ensina, e o aluno finge que aprende”. O que representa um enorme gasto de recursos pessoais (dinheiro e tempo) e públicos (professores pagos para não ensinar, escolas que deixam de cumprir sua função, livros didáticos que não agregam).

O QUE VOCÊ PODE FAZER?

Práticas de imersão são desafiadoras para nossa mente. Você se vê em um ambiente em que as pessoas falam somente a língua-alvo. Isso acontece quando você viaja para fora, assiste a um filme estrangeiro sem legenda ou lê um texto no idioma estrangeiro (sem traduzir mentalmente). Se você é iniciante, a prática é bastante complexa, pois exigirá de você um mergulho mental na língua-alvo e um silêncio mental da língua-materna. Atenção plena (mindfulness), perseverança e motivação são essenciais.

Mas isso não é novidade para sua mente, afinal, você vem fazendo práticas de imersão em sua língua materna desde que nasceu, processo que possibilitou seu aprendizado. O mesmo processo deve ser usado agora para um novo idioma. Só que agora será mais difícil.

O problema é que seu cérebro foi moldado pela evolução para  aprender somente a língua-materna. Consolidado o aprendizado desta língua, ela torna-se a “voz de sua consciência”. Você passa então a pensar através dessa voz, o que permite a você conversar consigo mesmo. Essa voz é produzida em duas regiões do cérebro, localizadas no hemisfério esquerdo: a Área de Broca e a Área de Wernicke. Estas regiões comunicam-se com todo o restante do cérebro, o que faz com que a linguagem atue em várias regiões da mente.

Depois de aprendida, a língua-mãe se torna tão onipresente que fica muito difícil silenciá-la. Se quiser experimentar, tente permanecer por 10 segundos com sua mente em silêncio, sem que nenhuma palavra seja pronunciada mentalmente. Difícil, não é mesmo? A voz de nossos pensamentos toma conta de nossa mente. E esse é o principal obstáculo para realizar uma imersão bem feita, pois a imersão deve atingir também as estruturas da mente. Isso quer dizer que a Área de Broca e Wernicke devem estar ocupadas somente com a língua-alvo.

Para que isso ocorra, torna-se indispensável que as aulas de idiomas sejam feitas na própria língua-alvo, com nenhuma ou pouquíssima interferência da língua-mãe. Isso deve ser estendido também às estruturas cerebrais, ou seja, a sua mente deve estar completamente submersa no novo idioma. Qualquer interferência mental da língua-materna interrompe o processo de imersão e exigirá um redirecionamento para a língua-alvo. Isso exige treino, pois é um trabalho contraintuitivo, ou seja, sua mente precisará adaptar-se a um processo ao qual ela não está acostumada. Mas, com um bom treinamento, você ganhará a habilidade de entender cada vez mais a língua, o que lhe dará o repertório necessário para poder falar bem o idioma.

PRÁTICA: TURBINANDO SUA IMERSÃO

Há duas formas básicas para exercitar a imersão. Mesmo sem saber, você já as praticou durante toda sua vida, para aprender a falar sua língua-mãe. Cabe agora fazer o mesmo processo com a língua estrangeira de sua preferência.

A primeira e mais natural forma de imersão é feita em um contexto social em que as pessoas falam apenas a língua-alvo. A imersão social depende de ao menos duas pessoas para ser realizada. Isso se faz com aulas em ambiente de imersão ou grupos de conversação. Algo ainda mais intenso é uma viagem ao país da língua-alvo. Independente de sua opção, a sua atitude fará toda a diferença no aprendizado.

Quando estiver no estrangeiro, busque contato com nativos e estrangeiros de outros países diferentes do seu. Você vai precisar sair de sua zona de conforto. A principal zona de conforto quando você está no exterior é a sua própria língua-mãe. Evite-a. Para tanto, busque interações e conversas com exclusividade na língua-alvo. Até mesmo seus pensamentos devem estar embebidos na nova língua. Sua mente deve ocupar-se lendo todas as placas e ouvindo as conversas nas ruas. Ao invés de traduzir, faça associações entre o que você lê e escuta com o contexto à sua volta.

A prática da imersão é um mergulho dentro da língua e da cultura de um povo

Faça como as crianças pequenas, que estão aprendendo a primeira língua. Aprenda a falar imitando os nativos do idioma, observando seu ritmo e sua entonação. Observe como os locais utilizam a linguagem corporal, sobretudo o que fazem ao mexer a boca, os lábios, a língua e a mandíbula ao falar. Faça como eles, imitando os mesmos movimentos. É muito importante o contato com aqueles que falam melhor que você. Ao fazer isso, seja menos competitivo e concentre-se em aprender. Os resultados vão aparecer. Mas, e se você não puder sair agora do Brasil, é possível afinal de contas aprender um idioma estrangeiro?

Sim! A imersão social pode ser feita aí mesmo, na cidade onde você mora, através de aulas em ambiente de imersão, grupos de conversação, ou chats à distância por meio da tecnologia. E você pode ainda praticar a imersão sozinho, através de outro tipo de imersão, a imersão observante.

A imersão observante acontece através de vídeos e textos na língua-alvo. Assistir às suas séries e filmes favoritos, vídeos interessantes no youtube, ou mesmo a leitura de livros e artigos na língua-alvo são formas muito eficientes de colocar seu cérebro em imersão. Lembre-se de que engajamento deve também ser total, abrangendo também as suas estruturas mentais.

Os filmes devem ser vistos sem legenda alguma, com áudio original na língua-alvo. As legendas na língua-alvo podem ser usadas provisoriamente, como rodinhas de bicicleta quando estamos aprendendo a pedalar, mas a verdadeira prática de imersão deve ser sem legenda, com foco total no áudio e na linguagem corporal dos atores. Assistir a um filme assim pode ser extremamente desafiador. Mas fique tranquilo. Para ficar menos “perdido”, você pode facilitar as coisas ao assistir novamente a seus filmes e séries favoritos. Ao reassistir esses programas, você já conhecerá o enredo e já compreenderá as situações, podendo dedicar-se totalmente ao aprendizado do idioma.

A imersão também pode ser feita através de filmes com áudio original e sem legendas. Divertir-se durante a prática é importante!

Seja lá qual a atividade escolhida, ela deve ser feita sem que sua mente traduza as palavras. Lembre-se, a tradução simultânea elimina a possibilidade de imersão, e, sem imersão, o aprendizado é nulo. Você quer então pensar na língua-alvo e, para isso, precisará absorver a língua em sua pureza e originalidade. O tempo jogará a seu favor, elevando seu conhecimento e dando a você uma vantagem extraordinária em relação aos que insistem em métodos tradicionais e ineficientes. Encare os desafios. Eles darão a você resultados e desempenho.

Com a prática, você passará a desenvolver uma nova habilidade. Habilidades, ao contrário de informações, são conhecimentos que o tempo dificilmente apaga. Ou seja, a imersão irá trazer-lhe uma intimidade com o novo idioma e fará com que você se sinta cada vez mais confortável com ele. Além disso, as habilidades cognitivas que são treinadas durante essa prática irão criar novas conexões em seu cérebro, e você vai ganhar mais agilidade mental e criatividade, aprimorando sua inteligência.

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