A eficiência de sua liderança depende deste fator

Por Giancarlo Yamamura Bardelli

Foi muito doloroso. No fim de 2016, li nos jornais que um acidente aéreo havia matado quase um time inteiro de futebol, a Chapecoense. Trabalhava naquele time um de meus alunos mais marcantes. Atordoado, procurei o nome dos membros do time que embarcaram naquele avião. O nome de meu aluno estava lá, Luis Felipe Grohs, o Pipe.

O Pipe me teve como seu professor em três oportunidades, desde seus 13 anos. Na última vez em que trabalhamos juntos, ele havia me contratado para ser seu coach de inglês. Ele queria também aprender mais sobre Liderança. Pipe estava tornando-se um educador também. Não é por acaso que os jogadores de futebol chamam o treinador de professor.

Quando ele trabalhou em Dubai, como assistente do Caio Júnior, fazíamos aulas em língua inglesa por Skype. A conversa era descontraída, mas tinha um grande embasamento técnico. Dentre os assuntos mais relevantes, falávamos sobre como liderar e motivar os jogadores, assim como todos aqueles pelos quais temos responsabilidades. Numa de nossas aulas, conversamos sobre este aspecto chave para um bom desempenho de seu time.

A ciência da motivação

Em 1963, um estudo liderado por Robert Rosenthal trouxe à luz algo surpreendente. Ele deu cinco ratos a cada um de seus alunos de psicologia. Os ratos eram praticamente iguais, mas os cientistas haviam mentido deliberadamente aos alunos. Disseram-lhes que os ratos haviam sido selecionados por cruzamento: metade deles, contaram os cientistas, eram ratos-gênios, enquanto a outra metade eram ratos-tolos. Os cientistas então pediram para que os estudantes avaliassem o comportamento dos ratos em um experimento.

Sem que soubessem que os ratos eram iguais, metade dos estudantes ficou com os “roedores apontados como inteligentes”, e a outra porção ficou com os “menos capazes”. Mesmo acreditando que os ratos eram diferentes entre si, os alunos foram instruídos a tratarem todos os roedores da mesma maneira e com os mesmos cuidados.

Os ratos foram colocados em um “labirinto”, em forma de T. Um dos braços do T era branco, e o outro, cinza. Só havia comida no braço cinza. Os ratos deveriam aprender a ir diretamente no braço onde havia comida. Cada rato tinha 10 chances por dia para aprender o caminho direto para o alimento. Os estudantes avaliavam o aprendizado diário dos roedores, tomando notas. O resultado impressionou os cientistas.

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Os ratos que os alunos acreditavam serem brilhantes tiveram uma performance significativamente melhor do que os ratos rotulados como menos capazes. Isso quer dizer que a crença na capacidade dos ratos influenciava sua perfomance, aumentando suas chances de sucesso ou fracasso. O mesmo experimento foi duplicado em outros laboratórios, com os mesmos resultados. Mas, se isso foi demonstrado com os ratos, será que um experimento semelhante poderia alcançar o mesmo resultado com humanos? Foi isso que os cientistas fizeram depois.

Eles resolveram aplicar uma variação do mesmo teste com alunos da rede de ensino. Nas escolas, sob a supervisão dos cientistas, vários alunos participaram de um teste de QI. Somente os professores receberam os resultados, sem saber que os cientistas haviam adulterado de propósito os dados: alguns alunos com resultado mediano receberam as pontuações mais altas. Isso fez com que os professores acreditassem que esses alunos eram brilhantes.

Algum tempo depois, os professores alegaram que tais alunos eram mais curiosos e interessados nas aulas do que os demais. Isso consequentemente foi traduzido em suas notas, que passaram a ser melhores também. Ou seja, a crença de que os alunos eram mais inteligentes, tornou-os mais interessados na aula. Mas outro dado chocou ainda mais os pesquisadores.

Oito meses depois, todos os alunos fizeram um segundo teste de QI. O resultado foi que 80% dos alunos apontados erroneamente como “brilhantes” haviam tido um ganho acima de 10 pontos. E até mais extraordinário ainda: 20% desses alunos ganharam 30 pontos ou mais em seu Quociente de Inteligência. Isso quer dizer que, ao serem classificados como mais inteligentes, esses alunos tiveram, de fato, um aumento significativo em seus atributos intelectuais. Esses resultados iluminam importantes pontos sobre a educação, assim como grandes áreas negras que existem no sistema tradicional de ensino.

Quando professores, chefes, treinadores e pais rotulam um indivíduo como “fraco”, ou menos capaz, mesmo que guardem tal informação em seu íntimo, eles acabam influenciando negativamente a performance daquela pessoa. Trata-se de um defeito gravíssimo em um líder. Por outro lado, quando o líder é bom, ele acredita verdadeiramente no potencial do indivíduo, desabrochando suas maiores qualidades. Os resultados serão certamente melhores neste caso.

Por que isso ocorre?

Aconteceu há uns 15 anos. Três amigos e eu saíamos de um bar. No meio da quadra, numa zona mais escura, fomos abordados por dois homens. Eles nos perguntaram onde se localizava a rodoviária. Ao invés de respondermos, nossas pernas nos levaram apressadamente para o outro lado da rua. Seríamos assaltados! Nosso inconsciente sabia do perigo e reagiu, movendo nossas pernas, como animais que agem sem pensar. A consciência participou meio atrasada da ação, como um narrador: “Caramba! Os caras iam assaltar a gente!”.

Ainda que sejamos racionais, Schopenhauer e Nietzsche estavam certo: somos animais sobretudo. Ou, se preferir algo mais freudiano, somos movidos pelo nosso inconsciente. Essa espécie de “intuição” que nos levou a atravessar a rua, por exemplo, é um poderoso mecanismo desenvolvido pela evolução. Ela garantiu a sobrevivência de muitos de nossos ancestrais a situações de perigo iminente, salvando-lhes a pele.

Graças a tais mecanismos, nossos antepassados sobreviveram, geraram descendentes com o mesmo código genético e cá estamos hoje. Nosso cérebro e seus misteriosos mecanismos são o resultado de milhões de anos de evolução.

Podemos dividir o cérebro humano de diversas maneiras. A mais comum delas é a diferença que existe entre os dois hemisférios do cérebro, que realmente possuem funções muito diferentes. Mas outra maneira bem interessante de entendermos este órgão é dividindo-o em 3 estruturas distintas, de dentro para fora.

Imagine uma fruta, por exemplo: ela possui uma casca, um polpa e um caroço. Assim a mente humana também possui três camadas distintas: o sistema reptiliano, o sistema límbico e o neocórtex. As partes mais profundas são heranças genéticas que temos de outros mamíferos mais primitivos, e até mesmo de répteis jurássicos. Essa longa história de nossa neurologia é interligada pelo fio da evolução.

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Nossos 3 Cérebros: fruto de milhões de anos de evolução, desde os primeiros répteis

Vamos concentrar-nos aqui na segunda camada, o sistema límbico, já que falamos de ratos anteriormente.

O sistema límbico é nossa mente emocional. Essa parte do cérebro é também chamada de cérebro mamífero, sendo que golfinhos, ratos e o seu cachorro também o possuem. Para se ter ideia, nossa consciência, localizada no neocórtex, possui pouca influência nesta região. Ela, a consciência, funciona mais como um porta-voz do sistema límbico do que como comandante. Daí sermos governados pelas nossas emoções.

O sistema límbico é também especialista em observar movimentos e interpretá-los. Mesmo micromovimentos, que são por vezes indetectáveis pela nossa consciência, são processados pela nossa mente emocional. Do mesmo modo, modulações nas vozes de nossos interlocutores também são percebidas por esta parte da mente.

Os ratos, como no estudo descrito anteriormente, também processam nossos movimentos e nossas vozes no sistema límbico, reagindo de acordo com a leitura desses sinais. O mesmo se pode dizer do ser humano, o que inclui nossos colegas no trabalho, filhas e alunos. Todos leem movimentos e tons de vozes, reagindo de acordo com os dados que o sistema límbico interpreta. Isso ocorre de maneira automática e inconsciente. Uma partida de futebol ilustra bem isso.

Todos sabemos da importância do fator campo em uma partida. Os times têm preferência por jogar seus jogos em casa. O sistema límbico dos jogadores – como o dos ratos e dos estudantes do teste de QI – processa os sinais positivos vindos da torcida. O grito, os gestos, as cores das bandeiras melhoram a performance dos atletas. Se a torcida, porém, se irrita e vaia os jogadores, o efeito sobre os atletas é dramaticamente negativo. Eles passam a jogar pior. A torcida é mesmo o 12º jogador.

A chave da motivação: Acreditar no potencial dos heróis

Nossos ancestrais romanos foram sábios ao relacionar em seu vocabulário essas três palavras: emoção, movimento e motivação. Ligadas ao sistema límbico, todas elas possuem a mesma raiz etimológica, a palavra motio. Isso talvez fique mais claro quando observamos essas palavras na língua inglesa: emotion, motion e motivation. A relação que elas possuem, do ponto de vista da neurociência, é a de que uma pequena modulação no tom de voz e na expressão corporal (motion) gera algum tipo de emoção (emotion) no interlocutor. Se a emoção for positiva, o interlocutor torna-se motivado. A motivação, por sua vez, gera também movimento (motion), um chamado à ação que impulsiona melhores performances. 

Lembro-me agora do Pipe! Ele acreditava na capacidade de seus jogadores. Junto com Caio Júnior, ele foi um dos responsáveis pelo sucesso dos jogadores da Chapecoense até a final da Copa Sulamericana. Ele também sentia o quanto eu apostava nele. Acreditar no potencial do indivíduo torna-o significativamente mais apto a realizar algo muito bem.

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O contrário também acontece. Duvidar da capacidade de alguém torna o indivíduo mais propenso a falhar em seus intentos, gerando um círculo vicioso que pode condenar a pessoa ao fracasso, como uma maldição. Isso possui sérias implicações nas escolas, nas empresas e nos lares.

Cada indivíduo é o herói de sua própria trajetória. Este herói possui talentos latentes e qualidades para serem desenvolvidas. Todo grande líder sabe enxergar e alavancar essas virtudes. Daí a importância de que pais, educadores, gestores e líderes possam ter esse olhar especial, a capacidade de encontrar valor no herói. É necessário conhecê-lo mais a fundo, buscar ouvi-lo e perceber aquilo que ele pode oferecer de bom ao mundo. Elogios são sempre bem-vindos. O bom líder o faz com sinceridade. A honestidade de suas palavras e de seus gestos (motion) atuará na mente do herói em seu sistema límbico (emotion), melhorando seus processos e seus resultados (motivation). Você será um líder mais eficaz aplicando este conhecimento em sua realidade, motivando seus heróis, seus filhos, alunos e colegas a atingirem grandes objetivos.

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Este é o ingrediente essencial se você quer falar outras línguas

Por Giancarlo Yamamura Bardelli

Quando João era mais jovem, ele passou muito tempo de sua vida fazendo aulas de inglês na escola, desde o início do Ensino Fundamental até o fim do Ensino Médio. Depois de 12 anos de aulas, tarefas e provas, mesmo com notas boas, ele não podia ainda comunicar-se em inglês, e mal entendia os textos feitos para falantes nativos do idioma! Além do tempo e dinheiro investido em um “ensino fake”, João terá ainda que desembolsar milhares de reais para tentar aprender inglês de verdade em um curso fora da escola tradicional.

Assim como João, outros 97% dos brasileiros não falam inglês, mesmo que metade destes tenham terminado o Ensino Médio. Isso mostra que a educação do Brasil simplesmente falhou no ensino de uma das perícias mais importantes do mundo contemporâneo, a habilidade de falar o idioma global. Há várias causas para este mesmo problema. Você poderá compreendê-las nas próximas linhas, assim como as soluções possíveis para resolver essa questão, caso queira aprender a falar inglês de verdade, ou outra língua de sua preferência.

Dentre os diversos problemas das aulas tradicionais, vamos concentrar-nos aqui no mais importante deles. A falta do ingrediente mais importante para se aprender uma língua: a imersão.

Sem imersão, o aprendizado de línguas é simplesmente impossível. A imersão consiste em um mergulho social e mental na língua-alvo (a língua que você quer aprender). É por isso que se aprende mais rápido estando no país onde se fala o idioma; ou seja, morar em Londres ou em Nova York, por exemplo,  é uma das melhores maneiras de aprender inglês. Mas, mesmo assim, muitas pessoas voltam do exterior sem falar ainda o idioma, mesmo depois de passarem alguns meses por lá.

Isso acontece justamente quando elas evitam a imersão, ao interagir demais com outros brasileiros e afins, limitando o seu contato com a língua-alvo. Mas, se a situação já é desafiadora para quem viaja ao exterior, imagine só para quem está no Brasil: aprender um idioma na escola tradicional é como “tirar leite de pedra”, praticamente impossível.

O maior problema das aulas tradicionais de inglês, por exemplo, é que elas são feitas em português. Ou seja, não há imersão. Pronto! Só com isso a escola já inviabiliza o ensino, por maior que sejam suas boas intenções. O fracasso é certo. Com o professor falando em português, o contato com a língua estrangeira é quase nulo, ficando restrito a regrinhas gramaticais que o aluno decora para fazer a prova. A escola tradicional acha que a língua é um conjunto de regras, enquanto a realidade mostra que a língua é um instrumento de comunicação. Ou seja, a escola cria uma realidade paralela que só existe dentro de seus muros, e as aulas de inglês ali só servem para que o aluno faça uma prova na própria instituição, sem relação direta com a vida real.

Aulas tradicionais de inglês. Os alunos não se comunicam, e a professora só fala português. Isso não funciona!

Uma das principais razões desse fenômeno nas aulas de língua inglesa é que, pasmem!, a grande maioria dos professores de inglês das escolas tradicionais, públicas e privadas, não falam inglês!!! Ou falam muito mal.

Temos então o famoso cenário em que “o professor finge que ensina, e o aluno finge que aprende”. O que representa um enorme gasto de recursos pessoais (dinheiro e tempo) e públicos (professores pagos para não ensinar, escolas que deixam de cumprir sua função, livros didáticos que não agregam).

O QUE VOCÊ PODE FAZER?

Práticas de imersão são desafiadoras para nossa mente. Você se vê em um ambiente em que as pessoas falam somente a língua-alvo. Isso acontece quando você viaja para fora, assiste a um filme estrangeiro sem legenda ou lê um texto no idioma estrangeiro (sem traduzir mentalmente). Se você é iniciante, a prática é bastante complexa, pois exigirá de você um mergulho mental na língua-alvo e um silêncio mental da língua-materna. Atenção plena (mindfulness), perseverança e motivação são essenciais.

Mas isso não é novidade para sua mente, afinal, você vem fazendo práticas de imersão em sua língua materna desde que nasceu, processo que possibilitou seu aprendizado. O mesmo processo deve ser usado agora para um novo idioma. Só que agora será mais difícil.

O problema é que seu cérebro foi moldado pela evolução para  aprender somente a língua-materna. Consolidado o aprendizado desta língua, ela torna-se a “voz de sua consciência”. Você passa então a pensar através dessa voz, o que permite a você conversar consigo mesmo. Essa voz é produzida em duas regiões do cérebro, localizadas no hemisfério esquerdo: a Área de Broca e a Área de Wernicke. Estas regiões comunicam-se com todo o restante do cérebro, o que faz com que a linguagem atue em várias regiões da mente.

Depois de aprendida, a língua-mãe se torna tão onipresente que fica muito difícil silenciá-la. Se quiser experimentar, tente permanecer por 10 segundos com sua mente em silêncio, sem que nenhuma palavra seja pronunciada mentalmente. Difícil, não é mesmo? A voz de nossos pensamentos toma conta de nossa mente. E esse é o principal obstáculo para realizar uma imersão bem feita, pois a imersão deve atingir também as estruturas da mente. Isso quer dizer que a Área de Broca e Wernicke devem estar ocupadas somente com a língua-alvo.

Para que isso ocorra, torna-se indispensável que as aulas de idiomas sejam feitas na própria língua-alvo, com nenhuma ou pouquíssima interferência da língua-mãe. Isso deve ser estendido também às estruturas cerebrais, ou seja, a sua mente deve estar completamente submersa no novo idioma. Qualquer interferência mental da língua-materna interrompe o processo de imersão e exigirá um redirecionamento para a língua-alvo. Isso exige treino, pois é um trabalho contraintuitivo, ou seja, sua mente precisará adaptar-se a um processo ao qual ela não está acostumada. Mas, com um bom treinamento, você ganhará a habilidade de entender cada vez mais a língua, o que lhe dará o repertório necessário para poder falar bem o idioma.

PRÁTICA: TURBINANDO SUA IMERSÃO

Há duas formas básicas para exercitar a imersão. Mesmo sem saber, você já as praticou durante toda sua vida, para aprender a falar sua língua-mãe. Cabe agora fazer o mesmo processo com a língua estrangeira de sua preferência.

A primeira e mais natural forma de imersão é feita em um contexto social em que as pessoas falam apenas a língua-alvo. A imersão social depende de ao menos duas pessoas para ser realizada. Isso se faz com aulas em ambiente de imersão ou grupos de conversação. Algo ainda mais intenso é uma viagem ao país da língua-alvo. Independente de sua opção, a sua atitude fará toda a diferença no aprendizado.

Quando estiver no estrangeiro, busque contato com nativos e estrangeiros de outros países diferentes do seu. Você vai precisar sair de sua zona de conforto. A principal zona de conforto quando você está no exterior é a sua própria língua-mãe. Evite-a. Para tanto, busque interações e conversas com exclusividade na língua-alvo. Até mesmo seus pensamentos devem estar embebidos na nova língua. Sua mente deve ocupar-se lendo todas as placas e ouvindo as conversas nas ruas. Ao invés de traduzir, faça associações entre o que você lê e escuta com o contexto à sua volta.

A prática da imersão é um mergulho dentro da língua e da cultura de um povo

Faça como as crianças pequenas, que estão aprendendo a primeira língua. Aprenda a falar imitando os nativos do idioma, observando seu ritmo e sua entonação. Observe como os locais utilizam a linguagem corporal, sobretudo o que fazem ao mexer a boca, os lábios, a língua e a mandíbula ao falar. Faça como eles, imitando os mesmos movimentos. É muito importante o contato com aqueles que falam melhor que você. Ao fazer isso, seja menos competitivo e concentre-se em aprender. Os resultados vão aparecer. Mas, e se você não puder sair agora do Brasil, é possível afinal de contas aprender um idioma estrangeiro?

Sim! A imersão social pode ser feita aí mesmo, na cidade onde você mora, através de aulas em ambiente de imersão, grupos de conversação, ou chats à distância por meio da tecnologia. E você pode ainda praticar a imersão sozinho, através de outro tipo de imersão, a imersão observante.

A imersão observante acontece através de vídeos e textos na língua-alvo. Assistir às suas séries e filmes favoritos, vídeos interessantes no youtube, ou mesmo a leitura de livros e artigos na língua-alvo são formas muito eficientes de colocar seu cérebro em imersão. Lembre-se de que engajamento deve também ser total, abrangendo também as suas estruturas mentais.

Os filmes devem ser vistos sem legenda alguma, com áudio original na língua-alvo. As legendas na língua-alvo podem ser usadas provisoriamente, como rodinhas de bicicleta quando estamos aprendendo a pedalar, mas a verdadeira prática de imersão deve ser sem legenda, com foco total no áudio e na linguagem corporal dos atores. Assistir a um filme assim pode ser extremamente desafiador. Mas fique tranquilo. Para ficar menos “perdido”, você pode facilitar as coisas ao assistir novamente a seus filmes e séries favoritos. Ao reassistir esses programas, você já conhecerá o enredo e já compreenderá as situações, podendo dedicar-se totalmente ao aprendizado do idioma.

A imersão também pode ser feita através de filmes com áudio original e sem legendas. Divertir-se durante a prática é importante!

Seja lá qual a atividade escolhida, ela deve ser feita sem que sua mente traduza as palavras. Lembre-se, a tradução simultânea elimina a possibilidade de imersão, e, sem imersão, o aprendizado é nulo. Você quer então pensar na língua-alvo e, para isso, precisará absorver a língua em sua pureza e originalidade. O tempo jogará a seu favor, elevando seu conhecimento e dando a você uma vantagem extraordinária em relação aos que insistem em métodos tradicionais e ineficientes. Encare os desafios. Eles darão a você resultados e desempenho.

Com a prática, você passará a desenvolver uma nova habilidade. Habilidades, ao contrário de informações, são conhecimentos que o tempo dificilmente apaga. Ou seja, a imersão irá trazer-lhe uma intimidade com o novo idioma e fará com que você se sinta cada vez mais confortável com ele. Além disso, as habilidades cognitivas que são treinadas durante essa prática irão criar novas conexões em seu cérebro, e você vai ganhar mais agilidade mental e criatividade, aprimorando sua inteligência.

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Este detalhe mudou a História

Por Giancarlo Yamamura Bardelli

A educação de um rei

O rei macedônico Filipe II (382–336 a.C.) ampliou consideravelmente seu reinado, tornando-se o homem mais poderoso do mundo helênico. Inteligente e estrategista, já havia iniciado uma intensa busca por alguém que servisse como educador a seu filho, quando este atingiu a puberdade. Depois de cogitar dois dos mais importantes sábios da época, Euspesipo e Isócrates, o rei optou por um homem de 40 anos, proveniente de Atenas, outro aluno do lendário filósofo Platão.

Começava um período de extraordinário aprendizado, em que o jovem príncipe, então com 13 anos, passou a dividir seu tempo entre jogos bélicos, envolvendo cavalos e armas, e explorações filosóficas nos terrenos da ciência, arte e política. Essa associação pedagógica moldou o caráter do rapaz, tornando-o um homem espetacular tanto na reflexão quanto na ação. O autoconhecimento provocado pelas longas caminhadas junto ao professor, permeadas por conversas cruciais, a clarificação de seus pontos fortes, o trabalho sobre suas fraquezas, o cuidado nos detalhes e a busca utópica pela perfeição esculpiram naquele jovem as bases de um visionário general.

Mas a guerra separa coach e aluno, agora com seus 16 anos. O rei Filipe II declara guerra contra Bizâncio, e o reino troca seus anos de paz pela tensão e pelo expansionismo. O nosso jovem se vê, de repente, ocupando o cargo de regente durante a ausência do pai, e logo é obrigado a defender-se contra a revolta de uma tribo trácia, cujo território ele então invade e coloniza. Tendo provado sua bravura e inteligência, o príncipe adolescente torna-se um dos maiores generais do reino, conhecendo o gosto da vitória e até mesmo salvando a vida de seu pai.

E foram anos de glória para Filipe II, que venceu Atenas e Tebas pela hegemonia do mundo helênico. Filipe unificara praticamente todo o mundo grego ao redor de seu nome e de sua vontade. Seus olhos agora se voltavam para o Império Persa, a eterna ameaça pairando sobre os gregos, mas seu sonho de um dia livrar seu povo de seu maior inimigo é interrompido. Filipe II é assassinado por um guarda-costas.

Sem tempo para preparar a sucessão, o filho mais instruído de Filipe assume o trono. O novo rei tem apenas 20 anos, está órfão e cercado de perigos. Adversários políticos afiam suas adagas, Tebas e Atenas declaram sua independência da liga, o reino ameaça ser invadido por tribos do norte. Todo o vasto legado conquistado e deixado por Filipe II ameaça despedaçar-se. E tudo depende de um homem recém saído da adolescência.

Aconselharam-no a agir com cuidado, consolidar seu poder interno, fortificar as defesas e aí sim reformar a liga com a influência de seu poder. Era isso que Filipe II faria. Mas não foi o que o filho fez. Sem dar tempo para seus opositores, o jovem rei lidera o exército ao sul, reconquista Tebas e parte para Atenas, que se submete sem resistência à agilidade daquele homem, e é readmitida à liga. Agora, ao invés de consolidar seu poder na Grécia, o jovem rei decide fazer o imprevisível: começar uma campanha contra o maior inimigo dos gregos – o poderoso Império Persa.

Em território inimigo, o jovem rei vence batalhas importantes e, ao invés de forçar sua posição para arriscar um cheque-mate, avança seu exército para outras terras, incorporando importantes regiões agrícolas, estendendo seu domínio até o Egito.  Suas iniciativas cortaram os suprimentos do império persa, ao mesmo tempo que garantiam um abundante manancial de recursos ao exército helênico. O talento político do líder grego mostrou-se absolutamente inovador para o mundo antigo. Ao invés de testemunharem um invasor sanguinário, as cidades ocupadas veem no jovem conquistador um homem justo e sensato, capaz de adaptar-se aos costumes locais e apaziguar os nervos dos vencidos, ao manter a mesma infra-estrutura administrativa, e cobrando os mesmos impostos, que agora financiavam os gregos. Várias cidades persas simplesmente davam as boas vindas ao carisma político dos vencedores.

Finalmente, a Batalha de Gaugamela, quando os gregos derrotaram definitivamente os persas, foi o golpe final de uma grande campanha, arquitetada em todas as esferas estratégicas: a militar, a política e a ideológica. O jovem rei, agora com 25 anos, tornou-se o soberano de todo o mundo antigo, levando os fundamentos da civilização grega às várias geografias conquistadas, ofuscando até mesmo o nome de seu pai, Filipe II. O filho, Alexandre III, nosso lendário soberano do mundo conhecido, ficou conhecido pela posteridade simplesmente como Alexandre o Grande.

O triunfo sobre si mesmo

Anterior às glórias; anterior à conquista de todas as geografias; muito antes da morte do pai e do trono precoce; antes mesmo à guerra contra Bizâncio e ao posto de regente ainda na adolescência: havia aqueles anos que Alexandre dividiu com seu educador. Ao invés de um ensino baseado em mera transmissão e reprodução de conhecimento, como na maioria das escolas de hoje, Alexandre o Grande aprendeu a refletir, calcular, controlar suas emoções, observar a realidade como um cientista, adaptar-se aos desafios e admirar a arte e a beleza das coisas.

O trabalho de um bom educador é ajudar o aluno a atingir a glória, e para isso o coach se esmera nos bastidores para que seu treinado atinja a excelência sob os holofotes. Muito antes de conquistar e governar o mundo, Alexandre o Grande governava a si mesmo. Ele levou sempre consigo o conhecimento esculpido durante aqueles três anos em que conviveu com aquele educador ateniense, também conhecido no mundo antigo e através dos tempos pelo nome de Aristóteles.

4 gerações e um fio condutor

Alexandre o Grande foi aluno de Aristóteles, que aprendeu com Platão, que foi o grande aluno de Sócrates. Há uma linhagem entre essas quatro gerações de homens, que moldaram a civilização ocidental. Eles não tinham o mesmo sangue, nem suas origens eram semelhantes. O fio condutor entre Sócratres, Platão, Aristóteles e Alexandre foi justamente: a educação.

O que eu admiro em Alexandre o Grande não são exatamente suas campanhas militares, que nós não podemos conceber, mas sua habilidade política. Napoleão Bonaparte